13/03/2014

A MENTIRA DE AMOR



   Desculpem-me, mas eu não acredito no amor Eros (entre um homem e uma mulher), e nunca vou acreditar; porque é uma grande mentira, simplesmente, um ópio para toda humanidade. Quando tentei acreditar, acabei deparando-me com o que costumo chamar de “decepção” ou “tapa na cara”, por algumas vezes. E tem sido assim. Não acredito no amor, não acredito nos que dizem  amar os seus namorados, maridos , noivos, amantes . 

   As pessoas não gostam de você pelo o que você é, elas gostam pelo o que você pode oferecer a elas. Costumam chamar de “desilusão” quando descobrem que o que queriam, você não pode dar ,e  descartam você tal qual objetos obsoletos . Então, pergunto a mim mesmo: o que move o mundo? O desejo de parecer ou o desejo de ter? Indago-me algumas vezes, percebo que sou incapaz de compreender. Não cheguei a esta conclusão pelas minhas experiências, e sim ao observar meus amigos e familiares que insistem em acreditar nessa bobagem, e vivem se machucando , traindo e sendo traídos.

   Sabe quando a gente passa numa loja , vê uma camisa e a quer comprar a todo custo, e depois de usá- la algumas vezes, perde a graça. É a mesma coisa que as pessoas fazem com você . Até  conquistarem seu coração , se tornam as melhores pessoas do mundo , depois lhe tratam como se fosse uma roupa usada,baldia ;  vira pano de chão ou vai servir a outra mais necessitada.

   Este amor que as pessoas têm buscado é uma das ferramentas do capitalismo, que movimenta bilhões, além de ser um mecanismo de controle social. Filmes , músicas e revistas têm sido, durante anos, usados com frequência para divulgar esta mentira. Você tem que encontrar " o amor da sua vida” , diz a mídia. Para mim, é o mesmo que dizer: " você tem que encontrar o saci , o lobisomem ou o coelhinho da Páscoa". Ou seja, uma faz de conta sem fim.

   Para aqueles que querem seguir vivendo uma fantasia em busca do amor  , cito um trecho do poeta Vinicius de Moraes: “... Quem sabe a morte, angústia de quem vive ,quem sabe a solidão, fim de quem ama ...” 

Em suma, esta foi a melhor mentira de amor que pude inventar!! 

20/02/2013

CRÔNICAS DE BAR


O grito de amor do Grajaú





O nascimento de um deus

Num apartamento monoambiente, nas esquina das ruas Caçapava e Uberaba,  vivia um mulato de 1,80 metros de altura , olhos verdes e corpo esculpido pelos mais de 20 anos de natação na equipe do Tijuca Tênis Clube. Teodoro seria um lindo exemplar da mestiçagem brasileira, se não fosse por suas feições rostrais. O sujeito era feio de matar. Carregava em seu rosto traços que levava, mesmo o mais beato dos homens, a acreditar que aquilo era obra do diabo . Tinha um nariz que lhe tomava toda face, os lábios eram tão grandes que lhe dificultavam a fala,e nos dias de sol , quase sempre no posto 9 da praia de Ipanema , ficavam rachados como o solo do sertão em tempos de seca , o que implicava numa hemorragia fétida. Não obstante à sua feiura obtusa , seus amigos de bairro nunca gastaram advérbios para superlativar tal fato. O rapaz possuía uma deformidade física que chamava muito mais a atenção, e que lhe rendera o apelido de Centauro.

Tudo começou ainda na infância, após uma pelada na praça Nobel, num típico dia de verão carioca ,sob um calor desses de 50 graus à sombra . O grupo de meninos, do qual Teodoro integrava, resolveu abrir um dos hidrantes do corpo de bombeiros para refrescar-se. Após todos estarem encharcados , um silêncio quedou-se entre os jovens, todos os olhares miravam Teodoro ,que vestindo um calção branco do América, seu time do coração, deixara transparecer seu mais guardado segredo. Era um segredo enorme. Neste momento, o menino corre em direção à sua casa , chorando, com a vergonha de quem roubou e não pôde levar. Desde então , o nome Teodoro caiu no ostracismo entre os moradores do Grajaú, ninguém o lembrava. Até mesmo as senhoras o conheciam como Centauro, um deus da mitologia grega.
O mito

O tempo passou, o grupo de meninos ficou adulto, mas continuaram amigos e encontrando-se religiosamente às sextas-feiras no Bar du Bom , a fim de pôr a conversa em dia. Em um desses encontros, Ricardo, um dos que pertenciam ao grupo, perguntou a Centauro:

- E ai, rapaz? Como andas com a mulherada?

Ele, que há muito se acostumara com o codinome , respondeu:

- Continuo com as gordinhas, não há nada melhor nesse mundo.

Centauro tinha uma teoria que não só levava a sério , como tinha um prazer orgásmico em repeti-la :

-Sair com uma gorda é o mesmo que dar um prato de comida a um mendigo. Não importa o menu, será degustado com prazer.




Todavia, no seu intimo sabia que esta rara predileção encobria a história de um homem pouco afeiçoado e de autoestima baixa, sempre acostumado a sair sozinho das boates na adolescência e a ser descartado pelas meninas nos tempos de colégio. Para os amigos a razão do gosto duvidoso era outa:

- Também, só mesmo uma gorda pra aguentar essa perna de três que trazes dependurada.- disse Roberto, outro amigo de infância, arrancando sobejas gargalhadas de todos os presentes no Bar du Bom ,na rua Grajaú.
Centauro disfarçava o ressentimento com uma risada forçada, falsa . Era um homem carinhoso , sonhava em casar-se . Mesmo na hora do sexo, sabendo do seu "defeito", era zeloso com suas gordas . Certa vez, uma de suas amantes comparou seu ato sexual a um enfermeiro aplicando uma injeção, e que lhe dizia :

- Não te preocupes! Vou devagar para não machucar...

Ademais, ele nutria uma paixão por uma moça que conhecera desde os tempos de moleque nas ruas do bairro.

A virgem

Em frente à casa de Teodoro, vivia uma menina linda , morena , cabelos negros e bem lisos , olhos verdes como esmeraldas ,seios fartos, mas não exagerados, de contornos eróticos na região da cintura pélvica. Chamava-se Cassandra. Diferente das outras meninas do bairro, com 18 anos ,ela não havia conhecido homem algum.

- Prefiro esperar pelo meu príncipe. - dizia, com um olhar esperançoso e pervertido, ao ser interrogada por suas amigas.

Era -sem dúvida- uma das mulheres mais desejadas na região da grande Tijuca. Nos fins de semana de sol, havia um verdadeiro duelos de galanteadores , onde o louro da vitória era um lugar ao seu lado no banco do lotado 434, rumo ao Leblon.
Fazia anos que Teodoro a admirava pela janela do seu apartamento. Sabia todos os horários da donzela, velava-a dia e noite, mas faltava-lhe coragem para intentar um contato, por mais breve que fosse.


Num sábado de carnaval, no meio do bloco " vai tomar no Grajaú", que cantava, com entusiasmo, a machinha saca-rolha, eis que Centauro lobriga a amada , e numa dessas atitudes incoercíveis que um homem toma a cada século de vida, lança-se como um kamikaze em direção à Cassandra.

- Estás gostando? - perguntou-lhe com um hálito alcoólico evidente.

- Agora ficou melhor.- respondeu Cassandra, pondo-lhe os antebraços sobre os ombros e cruzando as mãos por detrás da nuca do espavorido ser.

Não lhe restava outra alternativa , teria que beijá-la . Porém, como era bom moço e sabia da sua fama de garota invicta, Teodoro resolveu fazer-se de um cavalheiro de carnaval e a levou para um canto, longe da multidão.

- Desculpe , acho que deixei levar-me pela emoção- disse a moça, já arrependida da ousadia .

Foi então que o rapaz teve mais um ataque súbito de coragem:

- Quer ser minha namorada?

A moça com um sorriso, não se sabe se de deboche ou alegria, aceitou a proposta. E só depois disso se beijaram.


O dilema

Passaram-se dois meses e já estavam noivos. Teodoro não podia, sequer, pensar em perdê-la. Por outro lado tinha uma ideia fixa de que não podia casar-se sem antes experimentá-la.

- E se ela não gostar? Como ficam as coisas? - repetia, preocupado, aos amigos do Bar du Bom.

Para Cassandra, este tema não era nenhum problema. Marcaram um jantar à luz de velas no monoambiente de Teodoro, a fim de resolver o imbróglio.


Dias antes do tira-teima, Centauro fez uma visita a um termas que costumava frequentar na rua do Ouvidor ,no centro. Como era de costume , sua presença era percebida por todos os frequentadores e funcionárias, o comportamento destas se fazia singular. As meretrizes se escondiam pelos cantos , numa tentativa desesperada de não serem avistadas pelo Centauro do Grajaú. Ninguém melhor do que estas meninas para descrever o quanto era difícil suportá-lo. Havia uma única meretriz que o enfrentava , e o fazia com prazer . Pâmela era uma negra alta e gorda , de 120 cm de quadril , mãos grandes e lábios carnudos.

- Olá! A quanto tempo... Casou-se ?- Pâmela era também a psicóloga favorita de Teodoro.

- Não, mas estou noivo e quero perguntar-lhe algo, mas responda-me com toda sinceridade. - disse, com medo das resposta que poderia receber.

- Pode perguntar meu amor.- sorriu a menina, com o deboche peculiar de toda puta.

- Você acha que minha noiva me aguentaria? - Pâmela , após uma risada alta que fez ouvir-se até aos que passavam pela rua, respondeu:

- Meu anjo, nem eu que sou uma profissional - especialista aguento esta sucuri.- e ao mesmo tempo em que falava, apontava o dedo para o defeito físico do cliente.


O mesmo medo de perder Cassandra era o de lastimá-la. A problemática tomou de assalto a vida, até então feliz , de Teodoro. Como não machucar o seu amor prodígio? E se machucá-la , seguramente o abandonará em busca de outro com dimensões ditas "normais". O homem não dormia .Conforme acercava-se a hora do esperado encontro, mais pesados se faziam os pensamentos em sua mente. Horas antes do encontro com a amanda , Centauro sai de casa em direção à Tijuca, está disposto a dar um fim aquele fardo que lhe pesava mais que todas as gordas que havia comido até então.

- Se não for comigo, não será com mais ninguém. - repete , como um mantra, ao entrar numa loja de utensílios para o lar.


- Por favor, um facão para churrasco.- solicita ao atendente da loja.


O grito

Enfim é chegada a hora. Cassandra estava divina num vestido vermelho que lhe acentuava as curvas e um decote generoso e sedutor. O prato servido foi salmão grelhado, uma especialidade de Centauro.

- Estava bom?- balbuciou Teodoro.

- Sim , e eu trouxe a sobremesa. -respondeu Cassandra com uma voz sedutora somada a uma cara de terrível ninfeta, deixando-se entender o duplo sentido da afirmação.

Eles começam a beijar-se quando Centauro interrompe o ato :

- Dá -me 1 minuto e já volto.- dirigindo-se ao banheiro, onde havia escondido o facão recém-comprado.

Instantes depois, escuta-se um grito estridente vindo do banheiro . Teodoro ,ainda excitado e com a mente atormentada pelo seu dilema particular , havia decepado ao meio o órgão genital. Cassandra corre em direção ao noivo, e presenciando o cenário funesto, cai aos pés do agora ex-Centauro dizendo:

- Eu nunca te amei, só desejava isto que tinhas entre as pernas.


Cassandra foi trabalhar num termas ,na rua do Ouvidor,o mesmo que que Teodoro frequentava outrora , na esperança de encontrar um outro deus Centauro para sua vida.

04/11/2012

EU TENHO COR DE PICHE

   Neste último fim de semana, foram realizadas em todo Brasil, as provas do ENEM (Exame nacional do ensino médio), no qual milhões de estudantes competem pelas escassas vagas nas universidades brasileiras. Foram 2 dias de provas que abrangem todas as matérias que lhes foram ensinadas durante o ensino médio, uma verdadeira maratona intelectual. Todos os anos, a história se repete , pessoas de todas classes sociais, sexos , idade e "raça" ; têm de passar por esta verdadeira batalha , se almejam estudar nas instituições de ensino de maior prestigio de forma gratuita. Lembro-me bem que, quando passei por este processo , minha filosofia era : aprovação ou morte !!!

   No sábado, ao passar em frente a um dos lugares onde se aplicavam tais exames, como não poderia ser diferente , avistei centenas de candidatos ; todos com a aflição estampada em suas jovens faces, era o retrato do desespero expressado em cada rosto. Porém,  em um  determinado momento, enquanto conduzia meu carro no trânsito infernal, ocasionado pelos pais que levavam seus filhinhos para o " matadouro", comecei a fazer um rápido censo . Contei quantos alunos eram brancos, negros , pardos, indígenas,  mulatos e variantes dos citados.  Obviamente não cheguei a nenhuma conclusão,  não  pela falta de tempo, o trânsito estava realmente engarrafado; e  sim, pela falta de um conceito  para distinguir quem é de cada " raça" ( sempre uso  aspas, pois a OMS não aceita classificar seres humanos por raças) . 

   O fato que me levou a refletir sobre este tema e a me divertir com a tentativa fracassada de fazer um censo sem fundamentos foi a polêmica lei de cotas nas universidades brasileiras. Como já é de conhecimento de todos , as universidades brasileiras adotam , há algum tempo, um sistema que segrega os candidatos pelas suas características físicas (cor de pele). Brancos e negros não competem pelas mesmas vagas, ou seja, o filho de um ministro negro, que conta com salário altíssimo e uma estrutura educacional invejável ,  tem uma reserva de vagas . Em contrapartida,  o filho de uma família que  estudou em uma escola particular, mesmo havendo sido paga com todo o sacrifício , terá de competir com a  maioria dos candidatos.
   Como tudo no Brasil, esta lei foi criada por um grupo de políticos aproveitadores ,que vislumbram angariar o apoio de uma parcela da  população declarada afrodescendente.  A base filosófica dessa segregação parte do conceito esdrúxulo  de que, com a reserva de vagas , tenta-se reparar uma injustiça histórica no país, na qual negros africanos foram escravizados por brancos europeus , logo,  as pessoas de pele mais escuras, mesmo após 125 da Lei Áurea,   gozam da prerrogativa de uma forma distinta (privilégio) de seleção para o ensino superior. Ora, é o mesmo que culpar as crianças brancas de hoje por um erro de seus tataravós , e quem disse que os de pele negra são descendentes somente de escravos? Se trata de algo infundado, sobretudo dentro de uma sociedade miscigenada como a nossa.

   Como saber quem é descendente de africanos e quem não o é? Pela cor da pele, olhos e traços? Lógico que não, basta lembrar-se do Michael Jackson .  O excelente livro " Uma gota de sangue " , de Demétrio Magnoli, tenta desvendar este mistério; na minha opinião , sem sucesso. Os nazista diziam que para uma pessoa ser considerada não- ariana, bastava haver indícios,  mesmo que mínimos , de que tinha um ancestral que fosse de outra " raça". Como aplicar este mesmo conceito no Brasil, a fim de separar brancos de não-brancos? Quiçá um exame de DNA.

   Mirrei fixamente em uma menina que passara perto do meu carro, ela tinha um nariz achatado e cabelos crespos como de um negro, porém  sua pele era tão clara como a de uma sueca. Com quem competirá pelas vagas na universidade? Provavelmente, com quem lhe convém.

   Se o caro leitor vai prestar o vestibular, e  teve a desfortuna de nascer com a pele branca, olhos claros e sua família não teve a sabedoria de matricular-lhe em uma de nossas "maravilhosas" escolas públicas, sinto informar-lhe , mas o seu vestibular se tornou ainda mais difícil. Por outro lado, se, como este que vos escreve, estudou em escolas particulares ( caríssimas diga-se de passagem) , mas tem uma cor de pele um pouco mais escura. Não refugue quando lhe perguntarem à qual "raça"  você pertence. Diga-lhes: tenho a cor de piche. Pelo menos é o que eu diria, como um bom brasileiro que sou.

20/10/2012

FEIRA PODRE ( Argentina parte final)

   Desmotivado pela decepção com a metodologia da faculdade a qual cursava , somado a problemas familiares e a inflação vigente no país, desisti de seguir com meus estudos na Argentina.   Buscava, então,  uma transferência para uma universidade brasileira, onde poderia ter aulas todos os dias e livrar-me da problemática revalidação do diploma. Com esta mentalidade me somei a outros 99% dos brasileiros que estudam medicina no pais vizinho e que buscam desesperadamente uma transferência para solo pátrio.

   Aproveitando o tempo livre que dispunha, afinal  eu tinha aula somente 2 vezes por semana, entrei em contato com aproximadamente 100 universidades brasileiras  de todos os estados do país, a fim de perguntar-lhes se aceitavam a transferência de um aluno oriundo da Argentina. Para minha surpresa e desespero , apenas 12 destas faculdades aceitavam tais condições. Inclusive , a secretária de uma das faculdades que eram contrárias ao ingressos de alunos transferidos do exterior  explicou-me,  dizendo : " antigamente costumávamos aceitar , mas a grade  curricular de vocês é muito problemática, e resolvemos não aceita-los de agora em diante". Restava-me, então,  buscar nas que me aceitariam  ,e  procurei saber como se dava o processo de admissão para alunos " estrangeiros"  . Em todas estas faculdades, o processo se dá por meio de um concurso de admissão, com edital publicado e regras claras. Estaria lindo, se não fosse no Brasil. Ao procurar informações em pessoas que já haviam conseguido a transferência ,  deparei-me com um dado curioso e revoltante, tais alunos haviam se transferido por duas formas : indicação política ou  por meio de suborno, a conhecida compra de vagas.
   O comércio de vagas em universidades brasileiras   faz-se de forma aberta em Buenos Aires. Onde estes traficantes de vagas encontrariam um mercado consumidor tão aquecido para seu " produto" ?
 A cidade portenha está abarrotada de brasileiros que fariam de tudo para estudar medicina, e já que não conseguiram tal logro pelo esforço próprio, estavam dispostos a pagar, com dinheiro ou  influência política, pela chance de estudar em seu país. A verdadeira prostituição da medicina.


   No afã de conseguir uma transferência para o Brasil, estava realmente desesperado, resolvi entrar em contato com uma assessora chamada M. (não revelo o nome para evitar problemas futuros), para ver se poderia ajudar-me com este problema. Meu primeiro contato foi com uma de suas funcionárias, que após haver-lhe explicado minha situação,  disse:

- Pablo, fique tranquilo, pois muitos estão em situação semelhante à sua, e  pretendemos ajudar a todos.

Tais palavras foram, momentaneamente, de um alento enorme para minhas pretensões,  pois neste momento me encontrava , como diz o dito popular: " num mato sem cachorro". A atendente me pediu para retornar o contato duas semanas após este primeiro atendimento. Na segunda vez que falei com a funcionária da assessoria, as boas-novas me deixaram ainda mais animado.  Ela  me dissera  que meu nome já figurava no grupo de alunos que iriam  transferir-se para o Brasil com a ajuda da empresa na qual trabalhava,  mas que dentro de uma semana eu teria uma reunião com Dona M, a fim de esclarecer os detalhes. Em meio a estas explicações , fui alertado de que todo esse trabalho teria um custo, ao meu ver, e até então,  nada mais justo.

   No dia e hora marcados, fui ao encontro de M. , com a expectativa de um vestibulando que vai saber o resultado da prova. Ao chegar ao seu escritório , fui recebido por uma de suas funcionárias , que me mandou aguardar enquanto sua chefe falava ao telefone com um brasileiro, mais um que não havia passado no vestibular e queria fugir para o país vizinho.  Finalmente fui chamado por M. , que me perguntou  de uma forma ,um tanto quanto, irônica:

- O que houve, Pablo? Quer voltar?? É.... Tá todo mundo voltando.

E antes que eu pudesse falar dos fatos que  haviam me levado a tal decisão, fui interrompido com um discurso sincero desta senhora:

- Não vou enrolar você! O negócio aqui é venda de vagas.

Estas palavras foram como um tiro no meu peito , mas confesso que por haver buscado informações em pessoas que haviam se transferido , e visto que todas o haviam conseguido por meios ilícitos , não foi nenhuma surpresa. Mas ,  perguntei-lhe:

- E a transferência?

M., sorrindo , respondeu-me:

-Transferência é quase impossível. A não ser que você tenha um conhecimento forte no Brasil, você o tem??

Sem ter o que responder , fiquei calado. E ela após abrir a gaveta de sua mesa e sacar uma lista de duas páginas ,  falou:

- Aqui tenho a lista de faculdades que você poderá ingressar, é só escolher e pagar.

Ao ler tal lista contei aproximadamente 30 faculdades privadas de vários lugares do Brasil, havia uma tabela com o nome das instituições de ensino , quantidade de vagas disponíveis para compra, localização e o preço  cobrado. Os valores variavam de R$ 30000,00 a R$ 60000,00, algumas necessitavam a presença do candidato no dia do exame de ingresso, outras , nem isso. Escolhi uma faculdade do meu estado, e lhe interroguei a respeito da confiabilidade do processo, M. me explicou, dizendo:

-  É 100% garantido, inclusive, você só paga depois que fizer a matricula. 

Insisti em saber como funcionava o " esquema", e ela me disse:

- Pode ficar tranquilo , pois todos ganham: eu, a faculdade e um intermediário , por isso é tão garantido. Tanto que  tenho muita gente que já está estudando em varias destas universidades. 



 Impactado com a situação,  despedi-me  de M. e fiquei de dar-lhe uma resposta nas próximas 24 horas.
Ao chegar em casa e  dormir durante 1 hora- estava emocionalmente muito abalado- pensei e tomei uma decisão, a de abandonar tudo.
    Desde este momento, comecei a perceber que o sonho de estudar medicina  havia me levado a colocar minha honra sob prova, e eu confesso que quase vacilei. Nos dias subsequentes a este episódio ,  caí em depressão , mas tinha a certeza que não iria  corromper-me  a troco de nada. Posso estudar qualquer outra profissão, desde que seja de forma digna e honesta. Ao contar  da minha decisão  a outros brasileiros que estavam estudando em Buenos Aires , fui repreendido, e sempre me alertavam pelos benefícios financeiros que a medicina poderia me trazer  em comparação a qualquer outra profissão. Com isto , reafirmo que a esmagadora maioria dos que deixam o Brasil rumo aos países vizinhos em busca de um diploma de médico não o fazem por vocação ,e sim por ambição. Deixei a Argentina e a vontade de ser médico,  permitindo-me  descobrir dentro de mim  novos dons e a alegria de poder caminhar com a cabeça erguida no meu pais , sem ser um fugitivo, um exilado, sentimento que nenhum valor pode comprar.







15/10/2012

MEUS HEROIS ( Exército parte I)

   Como todo  jovem brasileiro ao completar 18 anos de idade, estava obrigado a  apresentar-me às forças armadas do meu país. Por outro lado, diferente da maioria   , ao chegar a maioridade já estava matriculado em um curso superior, o que não me isentava da obrigatoriedade vigente no "democrático" Brasil. Porém, este fato me dava uma opção de escolha , a de ingressar no exército brasileiro em uma escola de oficiais  temporários, o CPOR ( centro de preparação de oficiais da reserva). Dita escola foi pensada para dar àqueles que têm um nível cultural  superior ( leia-se ,os que estão matriculados em uma universidade)  aos demais  e se veem obrigados a servir pelo menos um ano de suas vidas à Força terrestre brasileira.
   Ao ingressar no CPOR , pensava em encontrar jovens com um nível intelectual alto, com estudantes de diversas carreiras das mais distintas áreas da ciência, de acordo com o histórico de alunos da instituição.  Bem , na verdade encontrei tais pessoas, mas na esmagadora maioria eram alunos que apenas haviam se matriculado em qualquer faculdade com o intuito de ingressar no centro, e assim gerar uma situação que lhes proporcionasse financiar seus estudos, ou seja, uma instituição que foi criada para não interferir nos estudos universitários de seus alunos, havia se transformado em uma oportunidade de emprego para os que desejavam ser universitários.

   Ao egressar do CPOR , é  concebida  ao jovem a graduação de aspirante a oficial,   titulo almejado por muitos ,sobretudo pelo soldo que lhes é conferido ,  que  nos dias atuais  chega as cifras de R$ 4323,00 , aproximadamente. Para um menino de 20 anos ganhar tão pomposo  salário , ter um porte de arma e uma identidade militar ; era como vestir-lhe uma capa do Superman, e é exatamente como muitos se sentem                         .  Obviamente a concorrência para o ingresso no centro de preparação era absurda, 200 vagas eram disponibilizadas e milhares de pessoas se candidatavam. Os métodos usados para a seleção incluíam : testes de habilidades intelectuais , provas físicas , além de um exame psicológico e médico. Mas, sim, existia em muitos casos o " Q.I ( quem os  indica)". Já no primeiro dia como aluno da instituição , encontrei companheiros obesos que não podiam ,sequer , correr por 300 metros, e então me perguntava, " como tais pessoas ingressaram se , teoricamente, teriam que correr 3000 metros em um tempo mínimo de 15 minutos? " . Nem o melhor fisiologista do mundo explica, mas o " Q.I" sim.



   Ao me formar aspirante a oficial no CPOR , no final do ano de 2003, fui encaminhado a uma unidade militar, para minha sorte a melhor  do exército. O 1º Batalhão de Policia do Exército, Batalhão Marechal Zenóbio da Costa, o  Berço da Polícia do Exército no Brasil, como dizia um antigo comandante, foi por 6 anos minha casa , literalmente. Neste local ,conheci a outra parcela ,  permito-me dizer os outros 99% dos jovens, que haviam se alistado assim como eu , mas por um  caminho bem diferente, à Força terrestre. Estes jovens eram geralmente oriundos dos bairros mais pobres da cidade, com renda familiar per capita muito baixa, nada comparado aos alunos da  escola de oficiais. A maioria não havia terminado o segundo grau ,e tempos depois ,com o convívio na caserna , constatei que quase todos tinham muita dificuldade com a escrita e interpretação de textos simples. Porém,  igual aos meus companheiros  de CPOR,  haviam ingressado  no exército,porque viram ali uma oportunidade de trabalho, ainda que o soldo pago para um soldado recruta (recém incorporado)  seja muito menor que o de um oficial, cerca de R$ 492,00, que somado ao "golpe" no auxilio-transporte, pode chegar a R$ 700,00.
   Estes soldados eram submetidos a uma rotina de trabalho , ao meu ver, desumana. Cumpriam seu expediente no quartel de segunda a sexta-feira ,e  concorriam a uma escala de serviço de 24 horas de trabalho com 24 horas de "descanso "( as aspas são pelo fato de que, nessa rotina, o militar era escalado para missões de policiamento , guardas diversas etc).  Somado a isso , as péssimas condições de habitação. Certa vez, um dos soldados da minha companhia foi roído por uma ratazana enquanto dormia.
 Sem falar na má qualidade da alimentação, futuramente escreverei uma postagem sobre este tema , pois fui durante 2 anos o oficial  responsável por administrar a cozinha do batalhão, tentarei explicar o fato das refeições no exército serem , salvo raras exceções,  de baixa qualidade.
   Com uma rotina  massacrante , aliado às péssimas condições de trabalho , esses guerreiros não tinham o direito de falhar. Fiscalizados assiduamente pelos oficiais , a qualquer erro mínimo, como um simples atraso ou uma pequena queixa, os recrutas eram punido com todo o rigor do regulamento militar, que muitas vezes os levavam ao cárcere por alguns dias. Em relação aos oficias, estes raramente eram punidos,  era-lhes permitido falhar à vontade, e quanto mais alto o posto ocupado, mais imunes ao regulamento se tornavam. Tenho um exemplo de um capitão, oficial de alta patente dentro de uma unidade militar como o 1º BPE, que chegava visivelmente embriagado ao quartel , e como se isso não bastasse , por uma vez urinou no pátio central da unidade. O que aconteceu com o tal militar?? Nada, ele era oficial.




    Nos meus últimos meses de serviço militar, após 6 anos e meio de dedicação à Força, recebi a função de capitão e tive a honra de  comandar uma  das companhias do 1º BPE . Mais experiente , aproveitei esta oportunidade para conversar e conhecer melhor  meus soldados ,e saber o porquê de submeter-se à tão estressante rotina . Houve um caso, que em particular me causou muita indignação. Um dos soldados da minha companhia, que havia prestado bons serviços ao Exército por 6 anos,   insistia em faltar ao expediente   e chegar atrasado;  chamei-o para uma conversa , e constatei que o militar havia se envolvido com o crack. Levei o problema ao meu comandante ,e lhe expliquei que o militar precisava de ajuda naquele momento, mas a resposta que obtive não foi surpresa para mim ,nem para o soldado: " primeiro o prendemos e depois o expulsamos". Juro que tentei argumentar, mas recebi outra resposta dura: " este não é um problema do exército, meu tenente". Então me coloquei no lugar do soldado e pensei , "se este ser humano que havia dedicado quase 7 anos da sua vida, de forma integral,  foi tratado desta forma, por que também não o poderiam fazer comigo?" Ah sim, eu era oficial...
 O tal soldado foi levado à prisão, mas com muita intercessão da minha parte pude salvá-lo da expulsão, às vésperas do fim de sua carreira militar.
    Para minha surpresa e alegria, percebi que havia trabalhado por todos esses anos , não com pessoas comuns  , mas com verdadeiros guerreiros, muitos dos quais sustentavam famílias inteiras com um soldo de R$ 700,00, que passavam a semana no quartel, mesmo nos horários de folga, afim de economizar seu  auxilio- transporte ,que não nutriam sonhos ambiciosos e que venciam uma guerra , fora e dentro do quartel, a cada dia. Desde este momento, tenho a certeza que não necessitamos de superman , posto que temos homens muito mais fortes e imbatíveis, nossos soldados, meus heróis!!!